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01/04/2025

Crentes e o esgotamento psicológico

 


Verdadeiros crentes no Senhor Jesus adoecem e também sofrem de males como esgotamentos e depressões - e isso não é contraditório à fé - Elias experimentou isso, Charles Surgeon também, e com muita severidade!

O Senhor Jesus é a nossa força e é a nossa paz, e é por isso que a despeito das muitas lutas e sofrimentos que nós perseveramos na fé, mesmo que contrariando e tentando superar as nossas fraquezas que são muito comuns.

A angústia é avassaladora, mas Cristo é o nosso rochedo seguro - eu sei o que é isso.

Ter a fraternidade dos verdadeiros irmãos, e suas orações, são bálsamos que Deus usa para nos ajudar e fortalecer mutuamente. Deus age por meio do Corpo de Cristo no mundo, a igreja (mas não estou pensando no subproduto da questionável coisa institucional e cheia de corrupções aqui, eu me refiro à fraternidade dos verdadeiros irmãos na fé, os crentes realmente convertidos, os santos que praticam a verdadeira piedade cristã) - mas ter falta dessa fraternidade é desolador como estar perdido num deserto.

Além disso, os poetas, os artistas (eu me incluo aí, ainda que relutante por anos) costumam ser os mais sensíveis aos sofrimentos interiores pois, penso eu, experimentam e idealizam belezas e contrastes que costumam castigar nossos corações para dali extrair a arte e as reflexões que produzem, sendo crentes ou não (porque a arte verdadeira é fruto da graça comum de Deus e não está restrita aos crentes).

Que o bondoso Senhor tenha suas graciosas mãos sobre o estimado irmão Stênio (a imagem acima é de uma postagem a seu respeito). Ele não está sozinho em seus sofrimentos e, todos eles são ínfimas partículas se comparadas ao insuportável e terrível sofrimento que o nosso Senhor e Salvador Jesus suportou para nos salvar.

"Meus irmãos, tende por motivo de grande gozo o passardes por várias provações, sabendo que a provação da vossa fé produz a perseverança; e a perseverança tenha a sua obra perfeita, para que sejais perfeitos e completos, não faltando em coisa alguma."

(Tiago, 1: 2 - 4)


Depoimento do pastor Marco Granconato sobre o pastor Paulo Júnior.

P.S - nos últimos anos eu experimentei "burnout" devido às crises com meu trabalho e com minhas recorrentes lutas nas igrejas por onde passei, e tive diagnóstico de depressão (e outras suspeitas...) que, evidentemente, têm afetado, e muito, o meu desempenho em muitas coisas. Mas persevero, oscilante, às vezes cambaleante, mas persevero porque a ordem do Senhor Jesus aos crentes é a de perseverarem até o fim.
"Mas quem perseverar até o fim, esse será salvo." (Mateus, 24: 13)

A minha força não é minha, ela é a da rocha da minha salvação. Se ela faltar eu morro. Mas eu bendigo ao Deus da minha salvação porque, diferente de mim, Ele não falha e cumpre todos os seus desígnios e promessas. É o seu braço forte, não o meu, que me sustenta.

Leia também:

Minha relação de amor e angústia com a igreja. 

Por que eu sou um cristão?

Aprendendo com Barnabé.

Uma reflexão sobre o mistério da Trindade.

03/08/2023

Semidestruído, mas prosseguindo


A cara revela perturbação. Depois de anos de relutância, enfim, o diagnóstico que não desejo admitir da maldita depressão. 

Terrível? Não, normal. O mal do pecado tem seus efeitos. Nós só temos cáries, ou obesidade, ou gripe, ou câncer, ou diabetes, ou alzheimer, ou covid, ou enxaqueca, ou má-formação, ou doenças genéticas, ou osteoporose, ou depressão, ou síndrome de down, ou úlceras, ou catapora, ou qualquer outra doença, desordem ou anomalia porque o mal do pecado atinge a todos e de variadas formas, comprometendo não apenas a nossa comunhão com Deus e a nossa espiritualidade (que com a regeneração pelo Evangelho são prontamente restauradas) e a nossa integridade moral (que com a santificação é corrigida ao longo da vida), e as nossas concepções, anseios e racionalidade (que com o processo de assimilação da Verdade são redirecionados para o propósito correto), mas, também compromete a nossa saúde física, a carne, com chagas, com defeitos, com vulnerabilidade, desajustes e com a irremediável morte (coisas que somente serão sanadas na ressurreição, com a glorificação).

Sim, a salvação é um processo que começa na eleição, no ato soberano de Deus salvar a quem Ele decidiu salvar, e inclui a regeneração (a conversão à fé em Cristo), e a santificação como processo iniciado na conversão de nos conformarmos paulatinamente ao modelo do Senhor e a glorificação, como desfecho da redenção realizada pelo Senhor e que os remidos obterão na vida após a ressurreição.

No meu caso os efeitos da depressão já não podiam mais ser disfarçados: ansiedade persistente em parte provocadas pelo excesso de pancadas por manter posicionamentos difíceis e caros, por muitas expectativas frustradas, por recomeços, auto-sabotagens, por colocar ideais acima de interesses e por estar quase sempre nadando contra a maré (e isso tem muitos preços). Por autocríticas severas (e críticas aos outros também), oscilações na vontade e no humor, repulsa por utopias e por otimismos terapêuticos que as convenções costumam adotar, repulsa por soluções entorpecedoras e por disfarces que têm efeitos imediatistas nos que são dados a soluções rápidas, práticas e fúteis; pelo descrédito a convenções estupidificantes que estão por todo o derredor, e uma relação oscilante e às vezes torturante com o meu próprio trabalho; e as tentativas, por vezes desesperadas, de encontrar equilíbrio e paz em lugares onde deveria-se velar pela verdade, mas que ao contrário, costumam-se adotar as satisfações momentâneas das convenções que eu aprendi a desprezar e que não pretendo desaprender para barganhar algum bem-estar, mesmo que isso esteja me custando caro, pois aprendi que integridade é coisa muito cara. Os íntegros não se vendem.

Some a isso o fato indelével de que sou um pecador, um problema que só será plenamente resolvido na glória. Então, por hora eu sou um fraco, um sujeito de altas aspirações sem que tenha envergadura para o que deseja, alguém que vive em luta constante entre a luz gloriosa que me agracia e as trevas ao meu redor que infelizmente mantém raízes dentro de mim e que, por vezes, podem me influenciar. E eu não as disfarço, o que faz de mim um inconveniente nos clubes que gostam de ostentar aparências. Sobrou-me, então, o limbo de não me enquadrar, para muitos sou um sujeito indesejável, e é inevitável que nas angústias do limbo sejam desenvolvidas marcas como as psicodermatoses e outros efeitos colaterais na psiquê, na carne e nas disposições para prosseguir. Sim, estou ferido, e bastante, mas desistir não é uma opção. As glórias do porvir pulsam diante dos meus olhos que começam a embaçar e das minhas mãos cada vez mais trêmulas.

Mas dirão: "incoerência!" - em clamores abafados e covardes de quem pensa que a redenção feita pelo Senhor faz de nós colunas inabaláveis, como que feitas de mármore imponente, de elevada fortaleza moral e espiritual onde ameaças como as depressões não teriam como vingar. E tal acusação, de fato, parece pertinente e sinceramente seria muito bom se houvesse razão nisso. Mas se lermos a Bíblia direito (ah, os Salmos com sua beleza de expor tantas vezes a alma quebrada do poeta inspirado por Deus e, ao mesmo tempo, expor a fé na fortaleza do Senhor numa coerência que só pode ser compreendida à luz da redenção!) veremos que esse tipo de pensamento e de acusação não passa de verborragia auto-indulgente feita por um hipócrita orgulhoso - hipócrita porque, por definição do Senhor, esse é o termo que descreve aqueles que desenvolveram o hábito de disfarçar suas próprias falhas, fraquezas e pecados (que nos são comuns em todos) com artificialidades que são facilmente aprendidas e adotadas, como encenações, vestes litúrgicas, aparatos institucionais e outras parafernalhas inúteis que o Apóstolo Paulo trata como esterco, mas que funcionam bem para serem usadas como réguas de medir comportamentos e para impressionar e intimidar as outras pessoas e convencê-las de que os portadores de um exibicionismo religioso meramente aparente são entes sagrados que estão muitos degraus acima das demais pessoas nas escalas de iluminação e de santidade, e que por isso merecem reverências, temores e obediências servis, pois se impõem como autoridades inquestionáveis (e gostam muito dessa sensação). Mas são apenas tolos, porque ao imporem glórias às falsidades humanas eles estão usurpando a glória de Deus, fazendo de si mesmos o objeto da sua ira, porque "Deus resiste aos soberbos" e "não divide a sua glória com ninguém". Como disse o Senhor Jesus, esses são sepulcros que por fora ostentam beleza mas que no seu interior escondem morte e podridão. 

Mas Deus não poderia curar ou impedir um crente de ter depressão? Sim, tanto quanto ele poderia curar alguém de astigmatismo, ou de úlceras, ou de unha encravada, ou de pedras nos rins. E se Ele decide não curar isso nunca invalidará as ordens do Evangelho. Portanto, com o corpo quebrado ou saudável, prossigamos servindo ao Senhor, pois o bem mais sublime que me podia ser feito já foi realizado na cruz e, por isso, eu sou dele do jeito que estou.

E glória a Deus por isso!

(Ah, Charles Surgeon, o "príncipe dos pregadores" também sofria de depressão)

"Amados, não estranheis a ardente provação que vem sobre vós para vos experimentar, como se coisa estranha vos acontecesse; mas regozijai-vos por serdes participantes das aflições de Cristo; para que também na revelação da sua glória vos regozijeis e exulteis. Se pelo nome de Cristo sois vituperados, bem-aventurados sois, porque sobre vós repousa o Espírito da glória, o Espírito de Deus."

1 Pedro, 4: 12 - 14

"Nós não pregamos a nós mesmos" (2 Coríntios 4: 5), pois somos todos pecadores, em nada diferentes de um mendigo dizendo aos outros onde encontrar o verdadeiro pão.


Uma metáfora: 
Em cada novo embate sofremos novas lesões, ossos são quebrados, dores adicionadas. 
E assim vamos acumulando chagas e cicatrizes até que as forças cheguem no limite. 
Mas parar não é uma opção.

🔹O servo sofredor:

https://atitudeprotestante.blogspot.com/2023/07/o-servo-sofredor.html

🔹Aprendendo com Elias (o profeta do Antigo Testamento que tinha depressão) e com Barnabé:

https://atitudeprotestante.blogspot.com/2023/07/aprendendo-com-barnabe.html

🔹Por que eu sou um cristão?

https://atitudeprotestante.blogspot.com/2015/06/por-que-eu-sou-um-cristao.html


🔹Histórico de dificuldades com igrejas:

24/01/2014

Tente outra vez!


Tente outra vez!

Linda canção de um artista extraordinário! Quase uma mensagem religiosa, quase uma pregação de fé! Quase, mas ainda eternamente distante disso...

Por quê?

Porque mensagens de otimismo, que levantam o moral de alguém que estava prostrado e que nos faz valorizar as coisas boas da vida, os motivos para lutar, para continuar, enfrentar obstáculos, etc são mensagens que têm um efeito positivo momentâneo e a sua natureza é meramente humana, de efeito psicológico e moral. Alguém pode receber uma mensagem assim e continuar vivento de forma otimista e completamente alheio à Cristo.
Esse tipo de mensagem de otimismo que alguns confundem e chamam de fé são ineficazes no campo da espiritualidade, não salvam ninguém, não regeneram ninguém e não preenchem a alma de ninguém com a poderosa e verdadeira presença de Deus.

Fé não é otimismo, fé não é apenas acreditar em algo e fé também não é uma virtude natural humana. Fé é um dom que recebemos de Deus quando a sua Palavra germina em nossa alma, é o resultado vivificador de alguém que recebe a Graça de Cristo nos revelando quem somos de fato: pecadores vazios de Deus e por isso destituídos da vida em sua plenitude, mas que somente por meio de Cristo são plenamente, irrevogavelmente e eternamente vivificados. A fé é um milagre não apenas para "tentarmos outra vez" mas para vivermos uma nova e eterna vida, livre da escravidão do pecado e verdadeiramente unidos com o Criador.

Infelizmente muitos pregadores "cristãos" reduzem sua mensagem de fé, que deveria ser o Evangelho, a proclamação de Cristo, a uma mensagem otimista, de vitória ou de lições para o bem-viver, estimulando seus ouvintes a terem reações positivas perante a vida... mas, lamento dizer, o "Raulzito" soube transmitir esse tipo de mensagem humanista muito melhor que esses pregadores. Este artista transmitiu essa natureza de mensagem no campo da arte, com maestria e beleza, e não no campo da religião como esses equivocados pregadores insistem, empobrecendo a experiência de fé dos crentes com o Senhor na medida em que esses crentes são nutridos com expectativas apenas imediatas e relacionadas aos dilemas e lutas da vida quando, na verdade, deveriam nutrir e experimentar a contemplação profundamente transformadora da Glória e da Majestade do Deus Todo-Poderoso que se fez homem em Cristo e que nos impulsiona a uma relação com a realidade ao nosso redor sob a perspectiva da redenção e da eternidade - coisas que só podem ser conhecidas através da fé, não na humanidade ou em algum tipo de otimismo, mas unicamente em Cristo.

Não é coincidência que predomina nas igrejas cristãs uma grande indiferença com sua missão. Se as pessoas são levadas a olharem apenas para si, dificilmente verão o mundo sob a perspectiva de Cristo.

"Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus." Efésios 2:8



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Fé, o que é fé?




Esta palavra – fé – tem servido para denominar uma variedade de habilidades humanas e que têm afinidade com a capacidade que o homem tem de acreditar ou de confiar em algo, e normalmente refere-se às realidades transcendentais, metafísicas – embora possa servir para fins pragmáticos. Por meio da “fé”, o homem interage com tais “realidades”.

Desde os primórdios, a humanidade procura desvendar os mistérios que a cerca, tais como o sentido da vida, o que há após a morte, as relações de causa e de efeito, a existência de um mundo espiritual e de um Senhor sobre o universo. A partir de tais questionamentos, a diversidade religiosa foi-se formando – e isso sempre exigiu que se acreditasse no que é especulativo a ponto de o especulativo transformar-se em algo certo, crível; e da diversidade religiosa surgiram as diversas culturas, a filosofia e a ciência. Vê-se aí o desenvolvimento da razão, que tem suas bases nas especulações primitivas e que sempre dependeu da crença em algo.

Mesmo com o desenvolvimento científico, a necessidade humana de acreditar em algo e de transformar essa crença numa ideologia é ainda presente a todos os homens: sempre escolhemos alguma ideologia conforme nossas convicções e escolhemos investir nossas vidas em certos sistemas de crenças, seja ele uma crença religiosa, ou ideológica, política, ou científica. Sempre temos que acreditar em algo e esse algo torna-se central em nossas vidas; sobre esse algo nós nos construímos, nos definimos.

Sem que se haja em quê acreditar, o homem perde-se numa imensidão sem respostas ou definições e sua alma se apaga, definha. Não haveria pelo que lutar, nada a construir ou pelo quê viver. Parece que o grande motivador que leva o homem à construção de algo, ao desvendar dos mundos, é sua capacidade especulativa seguida imediatamente por sua capacidade de acreditar e de se apegar a alguma idéia, um norte para o seu caminho.

Embora toda a humanidade seja capaz de acreditar em algo e dependa dessa crença para subsistir, a posição bíblica do que é fé diverge, essencialmente, das demais posições a respeito. Pode-se até atribuir o mesmo nome – fé – mas seus significados não são os mesmos.

Pode-se dizer que o que a fé apresentada na Bíblia tem em comum com a diversidade de fés que a humanidade experimenta diz respeito à capacidade de se acreditar, à crença. Para aproximar-se de Deus, é necessário, em primeiro lugar, acreditar que Ele existe e que galardoa a quem o busca (Hb 11.6), mas isso não corresponde à totalidade da fé.

A fé bíblica, ao contrário das diversas fés do mundo, não é uma habilidade humana, não é uma capacidade sua, inerente, para interagir com o especulativo, sobrenatural, transcendental e metafísico. Ela é uma capacidade que não faz parte de nós, não pertence à nossa natureza, mas é algo que pertence à natureza daquele que dá a nós a fé como um dom (Ef 2.8). Assim se, por meio da fé, interagimos com o mundo espiritual – especificamente com Deus – é porque a fé vem dEle para nós, e não sai de nós no sentido dEle.

A Bíblia revela que estávamos mortos nos nossos pecados (Ef 2.1, 5) e os mortos não podem buscar a Deus (Rm 3.11, 12). Assim, por mais que se possa admitir que toda a humanidade possui um tipo de fé, ela não é aquela fé revelada pelas Escrituras e é inútil como meio de contato com Deus. A “fé” natural dos homens não tem efeito nenhum diante de Deus, sendo apenas uma capacidade humana concernente à graça comum, aquele tipo de dádiva para possibilitar a vida neste mundo – e que talvez tenha algum efeito para diversas práticas religiosas, mas não para a prática da verdadeira religião, o cristianismo bíblico.

A Palavra de Deus, quando é proclamada, é a única formadora da fé que satisfaz a Deus (Rm 10.17) e que estabelece o elo entre Ele e os homens. Cristo é essa Palavra proclamada (Jo 1.1), Ele é o autor e consumador da fé (Hb 12.2), o decreto à vida e a resposta ao seu chamado leva à única resposta possível: a fé, que é um novo viver como filho de Deus (Gl 2.20).

“Porque andamos por fé, e não por vista”(2 Co 5.7).

12/09/2010

Depressão espiritual


O termo depressão normalmente é utilizado para nomear um estado psicológico de profunda e persistente tristeza sem que haja um motivo suficientemente capaz para provocá-lo. Quem sofre deste mal sente um profundo abatimento em suas vontades e é dominado por uma duradoura melancolia, capaz de comprometer sua qualidade de vida, sua produtividade, seus relacionamentos e até mesmo a continuidade da vida.

A psicologia e a medicina têm classificado a depressão como uma doença física, de natureza neurológica. Trata-se de uma deficiência hormonal que deve ser tratada como qualquer outra doença que exige acompanhamento médico e o uso de medicamentos. Fazendo-se assim, a depressão pode ser controlada.

A depressão tem sido chamada de a doença do século e estima-se que estamos diante de uma epidemia global, cujas causas estariam associadas ao tipo de vida nas sociedades modernas, marcadas pelo estresse, melo materialismo, pelo individualismo, pela solidão, pelo sedentarismo e pela falta de espiritualidade.

Contudo, no ambiente da espiritualidade os índices de depressão são bastante altos. Estima-se que um alto percentual de pastores evangélicos, por exemplo, sofram de depressão.

E quais seriam as razões para a depressão num ambiente espiritual e cristão, onde fala-se de vida abundante, de paz, de amor e de salvação, coisas incompatíveis à uma tristeza duradoura como a depressão? O estresse de uma vida sobrecarregada, um materialismo escravizante, um individualismo que subsiste mesmo onde deveria existir a comunhão, a solidão mesmo quando congregado, o sedentarismo espiritual das poucas realizações espirituais e a falta de espiritualidade na prática cristã.

Tais coisas podem resultar em decepção. Uma fé norteada por altos ideais contrastada com uma vida medíocre, de constantes altos e baixos, irregular. Uma cansável caminhada rumo à construção de algo que quase não progride ao longo dos anos. Uma fé refreada por realidades que mais parecem um balde de água fria jogado sobre uma pequena fogueira que insiste em queimar. Uma fé sufocada pelo ambiente das igrejas institucionalizadas que engessam a realização de um viver compatível com o Glorioso. Uma fé refreada por uma abordagem falsamente espiritualizada de realidades óbvias que as Escrituras apresentam, como por exemplo a urgente necessidade de servir a quem precisa, dando-lhes pão, abrigo, alimento e amor - ora, não queremos maltrapilhos em nossas igrejas... -  "espiritualização" essa que visa o contentamento com a inércia e a apatia: para realizar coisas maiores temos antes que fazer as menores... antes de sermos uma bênção para os de fora temos que o ser para os de dentro de casa... e como tropeçamos na nossa lição de casa, não nos atrevemos nas demais coisas.

Para ilustrar isso, tiramos "lições" espiritualescas de trechos como a parábola do bom Samaritano, onde são exaltadas as hipotéticas lições morais da boa motivação deixando de lado o real sentido do texto: a ação não importando de quem por quem, simplesmente a ação. O texto diz: faça! E o texto também diz nas entrelinhas: o que faz não está à altura do seu trabalho por ser sempre imperfeito, pois quem agiu bem foi o indigno samaritano... (indigno na concepção dos ouvintes dessa história dita por Jesus - os Farizeus)

É claro que a motivação cristã visa a glória a Deus, mas ao "espiritualizarmos" tal relação, fazendo com que antes sejam cumpridas certas exigências morais e restringindo a ação a círculos íntimos e pequenos de relacionamentos, o que se segue é uma igreja fraca, incapaz de interagir com a hostilidade exterior, incapaz de impor sua voz entre os muitos discursos proferidos neste mundo, com medo e acuada, incapaz inclusive de fazer alguma coisa pelo único e invisível mendigo que amanheceu encolhido na calçada da igreja e que permaneceu ali mesmo depois do programa religioso cujo tema foi "o serviço cristão"... "ah, mas ele não é membro da igreja e não temos com ele dever nenhum por isso!" diria um "piedoso" que me faria pensar que Jesus esqueceu de relatar que o Samaritano, antes de agir, teria pedido as credenciais e as referências do ajudado.

Cumprimos a Lei no que fazemos. Somos espirituais no que fazemos.

Depressão, causada por desgosto e cansaço. Por não saber o que e como fazer. Por sentir-se perdido em pleno caminho da salvação. Por não ter coragem de estender mãos a Deus e oferecer-lhes os escassos frutos da fé. Por não admirar as obras daqueles que se dizem andar na luz e que pertencem, na verdade, a um tipo de clube que visa uma vida de elevado padrão moral mas de decadente prática espiritual, onde se dá valor aos privilégios barganhados, onde se teme as opiniões divergentes e qualquer tipo de crítica, onde existe o medo de dividir o que se tem e por isso é feita a escolha criteriosa dos seus pares, que precisam cumprir certas premissas, que não devem carecer de coisa alguma e que sejam submissos a certas regras sociais que foram erroneamente canonizadas para que se tenha uma roupagem sagrada no que é, na verdade, um sepulcro caiado. Homogeneidade, uniformidade e esterilidade. Mas existe esperança!

Vejo Jesus escolhendo pessoas muitíssimo diferentes umas das outras para aprenderem com Ele como viver de modo que dignifique a Deus. Vejo Jesus dando tudo de si a pessoas indignas da sua Graça. Vejo Jesus tomando partido pelos que sofrem, pelos perdidos, pelos orpimidos. Vejo Jesus se opondo ferozmente aos poderes opressores tanto humanos como espirituais e enfrentando-os até a morte na cruz. Vejo Jesus pagando um alto preço por aquilo que Ele sabia que era a sua missão. Vejo Jesus sozinho. Vejo Jesus vencendo a tudo e a todos. Vejo Jesus sendo seguido por pouquíssimas pessoas hoje ao passo que muitíssimos invocam o seu nome.

Mas os que esperam no Senhor renovam as suas forças, apesar de muitas vezes serem semelhantes ao triste profeta Jeremias que chorava pela desolação que o cercava.

Essa depressão é melhor que a utopia dos que vivem sonhos mentirosos, é melhor do que o esconderijo dos medrosos, é melhor do que os palácios de areia dos arrogantes mas, ainda assim, é um estado danoso para quem a sofre.

Que aos tristes por tal situação da Igreja e do mundo, aqueles que realmente esperam em Deus, que sobre eles sopre aquela mesma brisa que sobreveio a Elias nos dias em que uma profunda desilusão o tomou. A brisa dos braços fortes do Pai e sua voz suave e poderosa, reconfortando e dando o devido ânimo para o prosseguimento na missão do Reino. O Reino do vitorioso Senhor Jesus.