Meus tempos de pentecostal canelinha de fogo.
https://youtu.be/0QrLUjJoD1Q?feature=shared
Entre os anos de 1995 e 1997 eu frequentei essa igreja (do link acima), a "Época da Graça", na Vila Prudente, em São Paulo. E foi um período muito importante na minha vida. Esse vídeo é de 1995, um dos cultos típicos, chamados de "proféticos" que eram realizados nas terças-feiras e nos domingos. Eu estava no meio dessa multidão nesse dia, a igreja estava sempre cheia de gente esperançosa por um milagre, por uma palavra de revelação ou profética, por um toque do poder de Deus.
Foi nessa igreja que eu conheci aquela que veio a ser a minha esposa e com quem formei família. Na verdade foi ela que recebeu a mim e aos meus amigos, oriundos de outra igreja, na primeira vez que fomos a este lugar. Com poucos meses eu passei a "trazer uma palavra" nos cultos da mocidade, e das mulheres nas quintas-feiras, e poucas vezes nas sextas. As mensagens eram do tipo "palavra revelada", conforme os costumes locais, sem preparo prévio, então eu tinha que estar sempre preparado para a possibilidade sempre real de ser chamado para trazer uma palavra. Isso não era combinado antes. Um dia, na primeira vez que fui no culto de quinta, a dirigente do culto (irmã Zilda) simplesmente desceu do púlpito e veio até mim, no fundo da igreja, que estava lotada, me puxou pela mão dizendo que era eu que ia pregar naquela tarde e me levou até o púlpito. Era assim que funcionava.
Eu era participante dos "mistérios" que eram cultivados nessa forma mística de fé, como o falar em línguas estranhas e ser tomado no mistério (transe religioso) e em 1996 o pastor subiu no púlpito onde eu estava terminando de pregar num culto da mocidade (lembro que foi em Deuteronômio 28) numa noite de sábado para me dizer que eu estava em observação para ser consagrado pastor dos jovens. Eu tinha 19 anos.
Mas a leitura constante da Bíblia foi, gradualmente, me esclarecendo acerca das suas verdades e isso me colocou em conflito com as práticas místicas típicas do pentecostalismo com seus transes, suas revelações, as profecias, os mistérios, as línguas estranhas, as visões de anjos, a acepção de pessoas... e então eu passei a pregar contra essas coisas que eram estranhas às Escrituras, coisas que faziam parte das minhas próprias práticas (eu passei a pregar, primeiro, contra mim mesmo), estranhezas que eram lideradas pelo pastor local (o carismático Arlen) e que atraíam multidões por causa de um tipo de espiritualidade que parece ser palpável, que causa entorpecimento mas que não corresponde aos ensinamentos bíblicos.
Eu e três amigos que compartilhavam das mesmas queixas solicitamos uma reunião com a diretoria da igreja para tratarmos das questões de divergências entre as práticas da igreja com o ensino bíblico. A reunião foi feita, éramos nós quatro e uns quinze integrantes da liderança da igreja, incluindo o pastor líder e todos os demais pastores. A reunião foi tensa, mas ouviram alguns dos nossos apontamentos, que por alguns deles foram tratados como "capricho" - é capricho, detalhe dispensável acatar o ensino bíblico quando o modelo praticado funciona, pois, segundo eles a igreja está cheia de gente sendo salva - esse é o tipo de argumento mais usado por quem defende as corrupções da fé cristã (igrejas como a IURD estão cheias de gente ouvindo a "palavra"). Pediram, então, que nada falássemos sobre o que conversamos com as pessoas de fora, a reunião tinha que ser mantida em segredo, e foi combinado de voltarmos a tratar das questões para buscarmos o entendimento numa outra oportunidade - que nunca houve.
Mas na primeira ocasião em que fomos à igreja num culto após essa reunião nós fomos hostilizados, agredidos e expulsos com o forjamento de denúncias falsas contra nós na polícia, e com o endosso de um Vereador que estava na delegacia para dar peso às denúncias.
Nesse dia, em 1997, eu aqueles 3 amigos fomos arrancados à força de um culto. O diácono que era o chefe de segurança do Tribunal de Justiça de SP, um homem muito grande (e quem me conhece sabe que tenho míseros 1,60 m) e com equipamento de rádio veio até mim e falou baixo: "Joãozinho, você não é mais bem vindo aqui" e em seguida me segurou pelo pescoço com o seu braço e me arrastou para fora da igreja, até a calçada. Eu não tinha a menor chance. Ali já estava armada uma confusão, dois dos meus amigos foram agredidos com socos enquanto outras pessoas gritavam conosco. Os dois casos mais tristes que ficaram na minha memória foram ver um dos pastores que até então era um irmão querido batendo palmas diante de mim enquanto dizia "parabéns, é isso que vocês conseguiram"; e o outro, o próprio diácono que me arrastou e me dizia "Joãozinho, não interessa o que você diga, o pastor orou e meu filho foi liberto das drogas" - aprendi muito naquela noite sobre os efeitos do ministério da mentira na cauterização das consciências acerca da verdade. Na sequência chegaram viaturas da Polícia que nos levaram à delegacia da Vila Alpina, onde já estavam alguns líderes da igreja fazendo denúncias contra nós e um Vereador de São Paulo que tinha ligações com a igreja para dar peso de autoridade política a essas denúncias. Fizeram Boletim de Ocorrência contra nós por tumulto no culto e por e agressão física contra os diáconos, ambas mentiras - eu respondi processo judicial por agressão ao diácono gigantesco que era também chefe de segurança do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, uma inverdade absurda.
Ali mesmo na delegacia a delegada de plantão deu um sermão àquela turba mentirosa dizendo "se vocês que são parte da igreja não conseguem resolver seus problemas, que esperança sobra para nós?" Foi ridículo.
Respondi processo judicial por agressão, o juiz entendeu que o inquérito não procedia, ficou claro que não fizemos nada e que houve truculência corporativa para simplesmente acabar conosco - e ali foi enterrada pela primeira vez a minha "ordenação pastoral", uma pendência até hoje muito mal resolvida para mim. Este juiz apenas nos aconselhou a nunca mais voltarmos naquela igreja, coisa que eu fiz em 2011, catorze anos depois para fazer o meu trabalho de pesquisa de campo para o meu Trabalho de Disciplina Interdisciplinar, o trabalho de conclusão do meu curso superior de teologia, que fiz na EST Mackenzie. O meu trabalho final foi sobre misticismo e paranormalidade (psicologia anomalística) inspirado na minha própria experiência e usando as práticas da igreja Época da Graça, que analisei para entender certos fenômenos que são nela, mas não somente nela, praticados - e por isso a banca examinadora decidiu tirar 1/2 ponto da minha nota 10, pois entendeu que eu procurava vingança com o meu trabalho de pesquisa. A banca examinadora não entendeu que eu não procurava vingança, mas que eu procurava entender os fatos que por anos me angustiavam e, graças a Deus, em grande parte eu os entendi: os fenômenos anômalos que são amplamente praticados nos contextos pentecostal e neopentecostal e que normalmente são atribuídos aos dons e ao mover do Espírito Santo são apenas obras de entorpecimento coletivo, são obras naturais e decadentes da carne, são práticas muito comuns nas religiões primitivas que nada tem a ver com a fé e a espiritualidade biblica e cristã
