Por que eu sou contrário à salmodia exclusiva ou à ideia de que o Saltério é o único hinário adequado ao culto cristão?
1) eu creio na inspiração divina, por consequência, na inerrância de toda a Bíblia - tanto de todos os textos que compõem o Antigo Testamento como os que compõem o Novo Testamento; e sei que os Salmos são, como parte dos textos do Antigo Testamento da Bíblia, igualmente inspirados e inerrantes e que esse mesmo saltério que temos nas nossas bíblias foi usado nos tempos em que existiu um Templo em Jerusalém a partir do reinado de Davi, sendo o livro "oficial" de louvores, dado pelo próprio Deus ao seu povo para cultuá-lo corretamente num tempo de esperança messiânica.
2) ainda que todos os textos que compõem os 66 diferentes livros da Bíblia sejam igualmente inspirados por Deus e inerrantes, existem claras diferenças entre eles quanto à revelação de Deus e da sua vontade, sendo essa revelação da verdade gradual e progressiva, sendo que todos os textos do Antigo Testamento estão num contexto de SOMBRAS (Hebreus 10: 1), pois apontavam para a vinda do Messias, na "plenitude dos tempos" (Gálatas 4: 4), o ponto mais sublime da história por causa da plenitude da revelação de Deus na pessoa encarnada do seu Unigênito, o Senhor Jesus Cristo.
3) todos os Salmos estão no contexto das SOMBRAS, o contexto da esperança do Messias e da revelação de Deus em sua completude. Essa revelação ocorre quando o Senhor veio ao mundo, uma verdade anunciada pelo EVANGELHO e explicada em todo o Novo Testamento. Assim, o Antigo Testamento é a preparação para a plenitude conhecida no Evangelho e explicada doutrinariamente nos textos do Novo Testamento, contexto em que os modos de se cultuar a Deus da velha aliança CADUCARAM, pois o imperfeito (no sentido de incompleto) deu lugar ao perfeito (a revelação completa de Deus em Cristo).
4) no Novo Testamento existem exemplos de hinos em diversas partes dele, todos cantando claramente a obra de Cristo e exaltando a sua ressurreição e triunfo. Tal clareza proclamatória não é vista em nenhum dos 150 Salmos, que são todos eles textos inspirados e inerrantes mas que apontavam para aquele que viria mais tarde, JESUS, estando então carentes da completude que se revelou ao mundo muitos séculos depois. Nenhum dos Salmos menciona o nome do Senhor Jesus, nome que está sobre todo nome e que é digno de todo louvor, toda glória e adoração. Nos hinos do Novo Testamento, porém, essa completude é claramente cantada e todos os Salmos, para atenderem ao louvor devido ao Senhor, requerem o complemento cristocêntrico.
5) podemos e devemos cantar os Salmos em adoração a Deus, contudo restringir os louvores ao saltério eliminaria do louvor congregacional o louvor devido ao nome do Senhor e o louvor proclamatório do Evangelho - essa sim, a mensagem que deve ser proclamada por ser o poder de Deus para a salvação de todo o que crê (Rm. 1: 16; Mc. 16: 15). Nos Salmos o Evangelho ainda não está completamente claro, o contexto de todos os textos do Antigo Testamento é de sombras, não de plenas luzes, algo que só aconteceu com a vinda de Cristo ao mundo (João 1). Para ser louvor perfeito, na Nova Aliança, os Salmos requerem a complementação daquilo que eles apontavam - e essa é a realidade de todos os textos do Antigo Testamento, a sua explicação na vida e na obra do Senhor Jesus, assim como Ele mesmo ensinou os seus discípulos sobre como deveriam ler todas as Escrituras (Lucas 24: 27, 44).
6) não existe nenhum texto em toda a Bíblia que ordene ou ensine que deve mos cantar apenas os Salmos nos cultos cristãos, contudo existem textos no Novo Testamento (Cl. 3: 16, Ef. 5:19) orientando os crentes a cantarem salmos, hinos e cânticos espirituais (considerados formas de instrução úteis para a edificação da fé dos crentes) e dentre os próprios salmos temos orientações aos crentes que cantem ao Senhor um novo cântico (Salmos 96, 98, 149) deixando claro que ainda que a coleção do saltério esteja encerrada nos seus 150 Salmos isso não significa que devamos nos restringir a eles para cantar ao Senhor e que é esperado dos crentes que sejam feitas novas composições para serem cantadas em louvor ao Senhor.
7) evidentemente existem muitas tolices e distorções que são cantadas em muitos cultos cristãos e a correção desses tipos de corrupção do louvor ao Senhor deve ser feita pelo exercício constante do zelo e fidelidade às doutrinas bíblicas, extraindo delas o que deve ser cantado e não a adoção de regras sem embasamento bíblico, caindo assim no pecado do legalismo.
8) o argumento para a adoção da salmodia exclusiva baseado nas práticas adotadas em certos períodos da história da igreja, por mais admiráveis que sejam, não passa de saudosismo de um modelo cultural e de tradições de homens que não têm força canônica. Toda cultura e toda tradição dos homens são efêmeros.
9) as formas como os Salmos eram cantados nos tempos do Templo de Jerusalém se perderam na história e as tentativas de resgate desse costume não reproduzem a métrica, a poesia e a musicalidade da língua original na cultural original. Necessariamente cantar Salmos requer adaptação cultural e impor certos modos como se fossem mais espirituais do que outras é atribuir valor espiritual ou canônico a coisas que não têm esse poder, caindo-se assim numa idolatria da forma.
10) usar qualquer texto do Antigo Testamento sem o exercício apostólico (nosso fundamento) de ler esses textos na vida e na obra do Senhor Jesus Cristo não nos faz diferentes dos mestres da Lei que foram contemporâneos do Senhor e que apesar de conhecerem a Lei e os Salmos de cor e salteado mataram o Senhor, o mesmo Messias que o seu saltério apontava - ou seja, a leitura não cristocêntrica dos textos do Antigo Testamento não tem validade espiritual nenhuma.
