terça-feira

Cracolândia



Eu conheci a cracolândia de perto em julho de 2011. Foi uma das experiências mais terríveis da minha vida.

Na ocasião eu participei de uma ação junto às missões evangélicas que atuam na região. Naquela noite, em grupos, os missionários, e eu entre eles, percorremos os quarteirões da região ocupada pela cracolândia para anunciar a uma multidão de pessoas completamente destruídas que a sopa estava sendo servida nas instalações de uma das missões. O trabalho dessas missões já era conhecido por aquelas pessoas, sua caridade era a fonte de alimento e de um pouco de dignidade humana e por isso podíamos andar livremente entre aquela massa de vultos humanos sem ameaças. Eles respeitavam o trabalho dos crentes das missões da região, que, de acordo com as regras, consistia em orar pelas pessoas sem se intrometerem ou interferirem nos "negócios locais" e oferecer alimento, banho e roupas para os necessitados e usar essas caridades como meios para atraí-los para ouvir o Evangelho, a palavra de esperança para um recomeço de vida, que inclui enviar interessados para clínicas de recuperação. Os missionários sabiam que o trabalho era árduo, que poucas pessoas eram alcançadas, entre 100 acolhidos talvez apenas 2 ou 3 seriam restaurados, mas o trabalho tinha que perseverar, afinal quem ganha uma vida ganha o mundo inteiro.

Mas estar no meio da cracolândia presenciando a movimentação de centenas de trapos humanos que perambulavam feito zumbis se drogando diante dos nossos olhos em meio a muito lixo, gente apodrecida aos montes, homens, mulheres, jovens, crianças e velhos completamente desumanizados se rastejando e alucinados, fazendo qualquer coisa para ter a droga e assim permanecer sob o seu efeito me atormentou profundamente. Meu sentimento de impotência e de indignação se agravaram quando adentramos numa construção em ruínas com muitos "moradores" e, lá dentro, num dos cômodos imundos, fedorento, colchão de espuma descoberto, todo sujo e revirado, um casal e suas duas filhinhas de uns 4, 6 anos, seminuas, passou a puxar alguns cânticos, louvores cristãos desses que cantamos nas igrejas. A alegria daquela família com a nossa visita provocou um começo de comoção entre o nosso grupo e aquela mulher e o seu marido oraram conosco, naquele estado, com suas filhinhas (que faziam eu pensar nos meus filhos) e terminada a oração os deixamos ali, seguimos nossa caminhada, ainda tínhamos trabalho pela frente mas eu estava absolutamente transtornado, tomado por terror e por desespero... Como pode um casal entoar cânticos ao Todo-Poderoso naquele estado e a situação deplorável ser continuada? Eu não conseguia olhar para aquelas meninas, verdadeiras vítimas, enquanto, enojado, ouvia os missionários confraternizando com o terror. Os meus pensamentos eram ocupados por imaginações terríveis, considerando o ambiente o que será que era feito com aquelas menininhas? Seriam parte do comércio? O terror e não a esperança tomaram conta de mim e a caminhada, dali para frente, virou uma perturbação insuportável, pois conheci a degradação humana num estágio ultrajante que também expôs tanto a impotência como a hipocrisia inclusive de quem, como eu, tentava fazer algum bem.

Diante da constatação de impotência perante a monstruosidade que vi, eu entendi que mais do que caridade aquela gente necessitava de ações do poder público, aquela situação tinha que ser enfrentada. A cracolândia era um tipo monstruoso de Estado paralelo, com suas leis próprias e o vício de desumanizados era um motor que alimentava um sistema, uma bola de neve, um câncer social sustentado por diversos crimes que aconteciam livremente sob uma caridade constantemente humilhada pela impotência e que se transformou em participante nos negócios. A caridade não tinha como ser suficiente para lidar com o problema dali, o resgate da dignidade humana teria que incluir quem tem força, dada por Deus, para fazer com que o câncer seja extirpado. As pessoas que se entregaram a esse modo deplorável de vida abriram mão da sua consciência, do seu juízo e de qualquer possibilidade de auto-gestão para entregarem-se ao contínuo efeito das drogas e à autodestruição. Acreditar que o oferecimento de algum acolhimento seja suficiente para recobrar a dignidade de quem é capaz de prostituir suas próprias filhas em troco de pedras de crack, mesmo a despeito de esses pais terem consciência da mais maravilhosa das verdades, é muito mais do que ingenuidade, é uma conivência maléfica e uma estupidez perversa que não deve ser admitida.

Sim, a cracolândia precisa ser enfrentada, desmontada. Seus articuladores devem ser penalizados. Não existe uma comunidade local na cracolândia e quem defende qualquer ideia semelhante a essa mentira é um idiota mal-intencionado, é defensor de um absurdo perverso e é um pervertido também. A intervenção à força é uma necessidade humanitária nesse caso e as verdadeiras missões cristãs que antes atuavam nas sombras agora terão que trabalhar junto ao governo e a outras organizações humanitárias e de saúde para tentarem reestabelecer a humanidade das pessoas que se entregaram a esse modo miserável e degradante de vida num trabalho que continuará árduo e necessário.


Foto tirada em 31/07/2011 - noite em que estive na cracolândia

SOBRE O ZELO RELIGIOSO


Os capítulos 24 e 25 do Evangelho de Mateus registram explicações, profecias e parábolas ditas por Jesus acerca dos sinais que antecedem a sua segunda vinda e de como devem se portar os cristãos durante esse tempo.
Ali estão registradas:
1) a queda de Jerusalém e a diáspora dos judeus;
2) a manifestação crescente de falsos ensinos sobre a fé, inclusive com prodígios miraculosos da mentira, a aparição de falsos Messias e de muitos falsos profetas;
3) a ocorrência progressiva de guerras, de disputas entre nações, de fomes, de doenças e de calamidades naturais;
4) a perseguição contínua e crescente aos cristãos com a apostasia de muitos deles e,
5) apesar de a pregação do Evangelho alcançar o mundo todo, ela será confrontada pelo aumento do esfriamento do amor.


Portanto os cristãos são inúteis aos propósitos de Cristo quando se isolam a pretexto de auto-preservação, e pelo contrário, são realmente úteis ao Senhor quando utilizam tudo o que do Senhor receberam para o servirem neste mundo, expondo-se a riscos, a perseguições mas realmente fazendo manifestada a Graça do Senhor no mundo exterior às paredes das igrejas.

Estes são os sinais da volta de Jesus, que ocorrerá em data desconhecida, mas que será vista por todos como um relâmpago que se mostra desde o ocidente até o oriente, uma calamidade que porá fim a este mundo e que submeterá ao Juízo divino todos os que resistiram à oferta do Evangelho.

Diante de tudo isso, os cristãos devem estar atentos aos sinais que já são evidentes. Mas como?

Sobre isso o Senhor Jesus contou 2 parábolas (capítulo 25), onde Ele fala da responsabilidade no cuidado da vida espiritual e também da necessidade de multiplicar os seus talentos que a nós foram confiados. Os cristãos vigiam simplesmente servindo ao Reino que em breve será imposto sobre todos nós antes que ele seja estabelecido, agindo neste mundo condenado como cidadãos do Reino de Deus e da sua Justiça, como cidadãos do Céu mesmo estando na Terra.

Um detalhe interessante está na descrição de um dos servos do capítulo 25, o que recebeu 1 talento e o enterrou por zelo, para não perdê-lo porque sabia que seu Senhor era exigente. Ele pensou estar fazendo um bem ao tentar proteger o que tinha, mas na verdade o que ele fez foi mal, uma evidência de falta de fé que resultou na sua condenação por rebelar-se contra o verdadeiro propósito da Graça de Deus que é de multiplicar-se neste mundo através do trabalho feito por aqueles a quem ela foi confiada.

Portanto os cristãos são inúteis aos propósitos de Cristo quando se isolam a pretexto de auto-preservação, e pelo contrário, são realmente úteis ao Senhor quando utilizam tudo o que do Senhor receberam para o servirem neste mundo, expondo-se a riscos, a perseguições mas realmente fazendo manifestada a Graça do Senhor no mundo exterior às paredes das igrejas.

O duplo dano da Teologia Liberal


A TEOLOGIA LIBERAL é uma inimiga da fé cristã que milita em duas áreas, ela tanto enfraquece (a igreja) como fortalece (seus inimigos).

A teologia liberal - se é que podemos chamar esse exercício especulativo humanista e desconstrutivista de teologia verdadeira - vem causando desde o fim do século XIX um dano profundo nas convicções de incontáveis pessoas. Ela desgraçou e matou muitíssimas igrejas e tem lançado sociedades que até então eram consideradas cristãs ao vazio do pós-cristianismo - um mal que ocorre em quase toda a Europa e que avança nos Estados Unidos e que, diante do vazio de valores absolutos, tem se tornado cada vez mais em campos férteis para a proliferação de idolatrias e misticismos bem como de qualquer crendice. 

Essa forma destituída de Deus de se fazer teologia superestimou o otimismo no ser humano e impôs o método científico à teologia como se as lacunas na história antiga e os fenômenos sobrenaturais pudessem ser dominados pela especulação presunçosa das pessoas. Assim, a fé deu lugar à especulação e à presunção do racionalismo, como se nossa racionalidade fosse apta para dominar absolutos a partir da nossa finitude, como se da nossa pequenez pudéssemos tratar o Altíssimo como um igual a nós - ou como um ente inferior e inventado pelas imaginações assombrosas de místicos antigos - e, baseados nesses pressupostos perversos esse método baniu das academias teológicas muitos dos fundamentos da fé porque não podem ser explicados pelos nossos métodos científicos, tais como a libertação de Israel do Egito através de milagres, o nascimento virginal do Senhor ou a ressurreição dos mortos.

Banindo o aspecto sobrenatural do pensamento cristão o que sobra não pode ser chamado de fé, sobra apenas um tipo de filosofia, sobram somente princípios morais que não são capazes de provocar em nós as exigências centrais da Palavra de Deus, porque "se Cristo não ressuscitou, vã é a nossa fé" (1 Coríntios capítulo 15, verso 14).

Assim, a teologia liberal com o seu método histórico-crítico, parte da dúvida e da desconfiança dos textos sagrados para tentar procurar uma "verdade" que está por trás do que está escrito, como se o que está escrito não fosse confiável simplesmente porque estão incluídos fatos que não podem ser reproduzidos num laboratório. Assim, a racionalidade orgulhosa, aquela que se impõe arrogantemente como se houvessem mentiras nas verdades de Deus, ousa desqualificar o poder do Deus que se revela a partir das Escrituras ("Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego." - Romanos capítulo 1, verso 16), resistindo afrontosamente também à sua Graça.

Ao mesmo tempo em que a teologia liberal cultiva a presunção humana para enfraquecer o cristianismo estabelecido em muitos lugares do mundo ela também tem servido de argumento para fortalecer os inimigos da fé cristã, principalmente dos apologistas islâmicos que se utilizam dessa "teologia" produzida por estudiosos "cristãos" (leia-se falsos) para atacar e desqualificar os fundamentos da fé cristã.

O método histórico-crítico dos liberais tem sido largamente adotado por muçulmanos para desqualificar a Bíblia. Eles se empenham para, a partir da teologia liberal, tentar convencer incautos que os Evangelhos são forjados, que o Apóstolo Paulo e consequentemente os seus escritos doutrinários são ilegítimos e que a história antiga de Israel foi manipulada. A partir do método dos liberais os muçulmanos encontraram bases para propagarem por aí que a Bíblia é mentirosa visando com isso conseguirem novos adeptos à sua fé. Mas eles não são suficientemente honestos para aplicar ao seu livro sagrado (Corão) o mesmo método histórico-crítico que usam presunçosamente para a Bíblia. O problema é que, via de regra, as pessoas (leigas e sugestionáveis) que ouvem um pregador religioso, qualquer que seja, o tem como autoridade no assunto que fala (principalmente se ele for carismático) - ainda que ele esteja falando mentiras descaradas, e é exatamente isso o que fazem os propagadores da mentira islâmica desde o dia em que um suposto profeta teria recebido a "revelação completa" de um anjo luminoso - ignorando, convenientemente a advertência do Apóstolo Paulo, mas sem ter poder para ignorar a maldição que está no final da sentença: "Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja anátema." (Gálatas, capítulo 1, verso 8)

Vê-se, portanto que os teólogos liberais fomentaram descrenças entre a cristandade sobre a sua própria fé e, ao mesmo tempo, têm dado munição aos inimigos da fé em Cristo para combatê-la - provas cabais de o quanto esse trabalho é maléfico e diabólico.