domingo

Depressão espiritual


O termo depressão normalmente é utilizado para nomear um estado psicológico de profunda e persistente tristeza sem que haja um motivo suficientemente capaz para provocá-lo. Quem sofre deste mal sente um profundo abatimento em suas vontades e é dominado por uma duradoura melancolia, capaz de comprometer sua qualidade de vida, sua produtividade, seus relacionamentos e até mesmo a continuidade da vida.

A psicologia e a medicina têm classificado a depressão como uma doença física, de natureza neurológica. Trata-se de uma deficiência hormonal que deve ser tratada como qualquer outra doença que exige acompanhamento médico e o uso de medicamentos. Fazendo-se assim, a depressão pode ser controlada.

A depressão tem sido chamada de a doença do século e estima-se que estamos diante de uma epidemia global, cujas causas estariam associadas ao tipo de vida nas sociedades modernas, marcadas pelo estresse, melo materialismo, pelo individualismo, pela solidão, pelo sedentarismo e pela falta de espiritualidade.

Contudo, no ambiente da espiritualidade os índices de depressão são bastante altos. Estima-se que um alto percentual de pastores evangélicos, por exemplo, sofram de depressão.

E quais seriam as razões para a depressão num ambiente espiritual e cristão, onde fala-se de vida abundante, de paz, de amor e de salvação, coisas incompatíveis à uma tristeza duradoura como a depressão? O estresse de uma vida sobrecarregada, um materialismo escravizante, um individualismo que subsiste mesmo onde deveria existir a comunhão, a solidão mesmo quando congregado, o sedentarismo espiritual das poucas realizações espirituais e a falta de espiritualidade na prática cristã.

Tais coisas podem resultar em decepção. Uma fé norteada por altos ideais contrastada com uma vida medíocre, de constantes altos e baixos, irregular. Uma cansável caminhada rumo à construção de algo que quase não progride ao longo dos anos. Uma fé refreada por realidades que mais parecem um balde de água fria jogado sobre uma pequena fogueira que insiste em queimar. Uma fé sufocada pelo ambiente das igrejas institucionalizadas que engessam a realização de um viver compatível com o Glorioso. Uma fé refreada por uma abordagem falsamente espiritualizada de realidades óbvias que as Escrituras apresentam, como por exemplo a urgente necessidade de servir a quem precisa, dando-lhes pão, abrigo, alimento e amor - ora, não queremos maltrapilhos em nossas igrejas... -  "espiritualização" essa que visa o contentamento com a inércia e a apatia: para realizar coisas maiores temos antes que fazer as menores... antes de sermos uma bênção para os de fora temos que o ser para os de dentro de casa... e como tropeçamos na nossa lição de casa, não nos atrevemos nas demais coisas.

Para ilustrar isso, tiramos "lições" espiritualescas de trechos como a parábola do bom Samaritano, onde são exaltadas as hipotéticas lições morais da boa motivação deixando de lado o real sentido do texto: a ação não importando de quem por quem, simplesmente a ação. O texto diz: faça! E o texto também diz nas entrelinhas: o que faz não está à altura do seu trabalho por ser sempre imperfeito, pois quem agiu bem foi o indigno samaritano... (indigno na concepção dos ouvintes dessa história dita por Jesus - os Farizeus)

É claro que a motivação cristã visa a glória a Deus, mas ao "espiritualizarmos" tal relação, fazendo com que antes sejam cumpridas certas exigências morais e restringindo a ação a círculos íntimos e pequenos de relacionamentos, o que se segue é uma igreja fraca, incapaz de interagir com a hostilidade exterior, incapaz de impor sua voz entre os muitos discursos proferidos neste mundo, com medo e acuada, incapaz inclusive de fazer alguma coisa pelo único e invisível mendigo que amanheceu encolhido na calçada da igreja e que permaneceu ali mesmo depois do programa religioso cujo tema foi "o serviço cristão"... "ah, mas ele não é membro da igreja e não temos com ele dever nenhum por isso!" diria um "piedoso" que me faria pensar que Jesus esqueceu de relatar que o Samaritano, antes de agir, teria pedido as credenciais e as referências do ajudado.

Cumprimos a Lei no que fazemos. Somos espirituais no que fazemos.

Depressão, causada por desgosto e cansaço. Por não saber o que e como fazer. Por sentir-se perdido em pleno caminho da salvação. Por não ter coragem de estender mãos a Deus e oferecer-lhes os escassos frutos da fé. Por não admirar as obras daqueles que se dizem andar na luz e que pertencem, na verdade, a um tipo de clube que visa uma vida de elevado padrão moral mas de decadente prática espiritual, onde se dá valor aos privilégios barganhados, onde se teme as opiniões divergentes e qualquer tipo de crítica, onde existe o medo de dividir o que se tem e por isso é feita a escolha criteriosa dos seus pares, que precisam cumprir certas premissas, que não devem carecer de coisa alguma e que sejam submissos a certas regras sociais que foram erroneamente canonizadas para que se tenha uma roupagem sagrada no que é, na verdade, um sepulcro caiado. Homogeneidade, uniformidade e esterilidade. Mas existe esperança!

Vejo Jesus escolhendo pessoas muitíssimo diferentes umas das outras para aprenderem com Ele como viver de modo que dignifique a Deus. Vejo Jesus dando tudo de si a pessoas indignas da sua Graça. Vejo Jesus tomando partido pelos que sofrem, pelos perdidos, pelos orpimidos. Vejo Jesus se opondo ferozmente aos poderes opressores tanto humanos como espirituais e enfrentando-os até a morte na cruz. Vejo Jesus pagando um alto preço por aquilo que Ele sabia que era a sua missão. Vejo Jesus sozinho. Vejo Jesus vencendo a tudo e a todos. Vejo Jesus sendo seguido por pouquíssimas pessoas hoje ao passo que muitíssimos invocam o seu nome.

Mas os que esperam no Senhor renovam as suas forças, apesar de muitas vezes serem semelhantes ao triste profeta Jeremias que chorava pela desolação que o cercava.

Essa depressão é melhor que a utopia dos que vivem sonhos mentirosos, é melhor do que o esconderijo dos medrosos, é melhor do que os palácios de areia dos arrogantes mas, ainda assim, é um estado danoso para quem a sofre.

Que aos tristes por tal situação da Igreja e do mundo, aqueles que realmente esperam em Deus, que sobre eles sopre aquela mesma brisa que sobreveio a Elias nos dias em que uma profunda desilusão o tomou. A brisa dos braços fortes do Pai e sua voz suave e poderosa, reconfortando e dando o devido ânimo para o prosseguimento na missão do Reino. O Reino do vitorioso Senhor Jesus.