terça-feira

Sobre a nossa liturgia.


A liturgia verdadeira de uma igreja verdadeira foca somente na glória de Deus por meio da vitória do Cristo ressurreto sobre a maldição da cruz. O centro do culto da igreja primitiva era a ressurreição do Senhor Jesus Cristo e isso me leva a considerar alguns contrastes com o nosso serviço religioso. A quem queremos servir?

Considero importante, porque as Escrituras assim o consideram, a formação de um caráter bíblico, cristão. Mas esses assuntos importantes e bíblicos são assuntos dos homens e devem ser tratados em ocasiões oportunas, sejam em estudos, sejam em confraternizações, seja na comunhão que os crentes devem nutrir ou até mesmo em certos momentos específicos em que a explanação da Palavra durante o culto assim apontar; mas não na totalidade do culto, pois no culto o que se deve fazer é adoração à Deus e esse deve ser um momento sublime de atos sublimes em que a humanidade e suas questões se humilham, se prostram, reverenciam, adoram, contemplam e louvam a Deus. No culto que o homem e suas questões sejam diminuídas diante da ênfase e evidência da glória daquele que é cultuado e que é digno.

Mas não tem sido assim conosco.

Em nossos cultos nos esforçamos para contagiar e conquistar nossa platéia. Estamos preocupados em prestar um bom serviço aos nossos ouvintes e gostamos de ostentar nossa capacidade intelectual ou qualidades morais. É o homem e não Deus o assunto central da nossa liturgia.

Se somente o Espírito Santo é capaz de conduzir as pessoas à verdadeira adoração, então por quê nos utilizamos de artifícios meramente humanos com o intuito de produzir alguma reação religiosa? Não seria isso o pecado da idolatria, a tentativa humana de produzir algo que somente o próprio Deus pode produzir: adoração? Por que nossas canções, quase sempre cantadas na primeira pessoa do singular, são tão focadas no homem? Por que gastamos tanto do que deveria ser culto para tratar de lutas e de desejos humanos? Por que não são as Escrituras em si, mas as lições que dela são derivadas e que são ricamente ilustradas que valorizamos? Por que valorizamos mais o método do que o conteúdo? Por que caímos na tentação do uso de imagens artificiais para ilustrar a espiritualidade? Por que reduzimos o texto sagrado a um ponto de partida para discursos morais mas meramente humanos ao invés de ficarmos com o texto sagrado apenas, que é a própria Palavra de Deus? Por que fazemos da Bíblia um trampolim para as nossas idéias? Seriam elas mais importantes ou relevantes do que as Palavras proferidas pela boca do Altíssimo? Tais contradições evidenciam nosso orgulho e vaidade. Evidenciam também quão pequena é nossa fé ou, nos casos grosseiros e infelizmente abundantes daqueles que supõem que é possível de se fazer algum tipo de barganha com Deus através do que se faz num culto como expressão de fé ou de sacrifícios.

Para lições e estudos, muitos artifícios são úteis para o aprendizado, mas para o culto quase todos os artifícios são perigosos, sob pena de inutilizar o culto à semelhança dum fogo estranho dentro do santuário como se o Todo-Poderoso Deus precisasse da precária ajuda humana no trabalho que somente seu Espírito Santo tem de nos conduzir em adoração nos seus átrios. No culto nos rendemos e é Ele quem nos conduz a si.

É necessário o resgate da prática do culto pela igreja. Deus reinvindica adoração e ela confere identidade às pessoas pois é para isso que fomos criados e existimos, por meio dela nos aproximamos intimamente do Senhor e ela comunica amor entre o adorador e o adorado.